O movimento d(e um)a cidade

12.11.14




Amanhã começa mais uma mostra de doces e licores conventuais em Alcobaça. O evento decorrerá, como de costume, no Mosteiro e estender-se-à até dia 16, Domingo. É no seguimento de mais um evento de grandes proporções nesta (minha) terra que vos ressuscito uma das minhas crónicas escritas para o jornal da cidade. Ora cá vai ela:




"Os álbuns de fotografias só ficam compostos quando a família está toda reunida. Quando falta um primo ou quando a tia distraída se atrasa, é logo um caso sério. Até parece estranho mencionar o assunto porque o caso encaixa em todas as famílias, não é? A harmonia e a simples sensação de sabermos que todos os elementos se preocupam em comparecer e em trazer um sorriso, valem a pena. São as chamadas raízes de família; aquelas que ligam desde o primo e a tia distraída até à avó e ao parente que raramente vemos. 


Raízes. As raízes que vamos criando e fortificando quando nos estabelecemos num local por algum tempo. Podemos ter nascido no local, ter mudado para lá apenas mais tarde ou até mesmo visitá-lo apenas de tanto em tanto tempo. Quando refiro raízes, menciono quase pela calada conceitos que variam entre memórias, histórias, momentos, pessoas, locais e muitos outros que agora não me vêm à memória mas que garantidamente são importantes neste assunto. Neste assunto que, de uma forma ou de outra, me obriga a sublinhar o amor aos lugares. 

Amar um lugar é como querer levá-lo dentro do bolso sempre que nos afastamos. Ter-lhe aquele apreço e aquela estima que nos enchem de orgulho quando o ouvimos referido com sendo um lugar de qualidade e que nos trazem aquela revolta suspeita quando as opiniões são contrárias à nossa. 


Criar raízes num lugar é preciso; e trazer aquela sensação de sabermos que os outros se preocupam é urgente! Eu não seria eu se não tentasse persuadir os meus amigos a comprar sumos da Maçã de Alcobaça quando os há à venda no local onde lanchamos. Porque ser-se da terra é isso mesmo. É identificar o produto como nosso e considerá-lo um pedaço da nossa raiz. Porque quando falta suporte dos cidadãos aos produtos e produtores da região, é como se faltasse alguém na fotografia de família. E já sabemos que isso geralmente é… um caso sério!

O amor à região, se me permitem que volte à explicação mais romanesca que entretanto aqui se criou, traz-nos aquela sensação de família que supracitei inicialmente. Vivendo na aldeia, a facilidade em conversar com o senhor do pequeno talho e com a senhora da antiga mercearia é maior; vivendo na cidade, a probabilidade de afeição à vizinha do apartamento da frente ou à senhora da pastelaria também é elevada. Onde quer que estejamos, criamos sempre laços. Raízes.

Os locais – e as regiões – que nos preenchem o País são demasiado ricos. Ricos em pessoas e em produtos. Não escrevo muito para lá das pessoas e dos produtos porque basta juntar pessoas e produtos para criar vida e movimento na região. Basta um produtor e algumas maçãs para criar uma marca; basta um pasteleiro e várias cornucópias para trazer turistas aventureiros. 

Investir na região nunca é demais. Criar, estabelecer metas, errar e ter sucesso, nunca é demais. Comprar, divulgar a região e os produtos característicos e ter orgulho no que é nosso também nunca é demais. Demais é, se me permitem, o conformismo que nos impede de investir e de alargar todas as janelas para que mostrem cada vez melhor o enorme horizonte que há para lá de tudo isto. E por horizonte, entendamos que me refiro à região. Porque ela faz-se de pessoas e de produtos."



À parte disto, espero que visitem Alcobaça neste próximo fim-de-semana e que se lambuzem com dois ou três doces (que não fazem mal a ninguém!).




Daniela Carreira Peralta

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