Anularam o tradicional

12.12.14

Imagem weheartit.



«Se bem me lembro, a tarefa de ir às compras estava sempre riscada da lista de afazeres do meu avô. Não que não comprasse, mas sim que se irritava com as multidões. Que vá a avó! E que leve a filha e a neta para fazerem companhia e para opinarem sobre as escolhas.


Chego a Leiria e paro na praça Rodrigues Lobo. Ouço o estalido da cadeira de madeira no momento em que a puxo para trás a fim de me sentar na esplanada. Tenho comigo a minha caneta de tinta preta e o meu pequeno caderno de folhas brancas ainda por preencher. A praça está coberta de gente apressada e de gente despreocupada também. E há esta voz trémula que me acompanha quando respondo ao senhor que «não quero mais nada, obrigada». O meu café, depois a minha garrafa de água que faz lembrar os dias longos de verão quente. Vou observando os compridos candeeiros, as arcadas já antigas e as lojas persistentes que recebem um cliente muito de tempos em tempos.

O senhor João, que dantes vendia um porco inteiro por dia, agora nem da orelha se vê livre. Adivinho-lhe a rotina gasta: abrir o talho bem antes do sol nascer, fechar já depois do noticiário da noite começar e esperar todo o santo dia por dez ou vinte clientes que teimam em já não comprar carne. Os tempos são outros, estes de hoje.

Observo a praça com aquela sensação de poder observar tudo sem ser responsável por mais nada para lá destas palavras. Aqui passeiam os casais já habituados à presença um do outro, os adolescentes com cara de quem se acha rebelde, as senhoras imundas em perfumes que lhes custaram couro e cabelo. Depois existem, lá ao fundo, os bancos de jardim ocupados pelos corpos movidos pelo passar dos anos. São senhores de bengala. São senhoras de lábios pintados. Ouço-lhes as vozes desconexas. 

Quando me sento aqui, imagino a praça cheia de gado, de vegetais e de regateares de preço. – Se não der para baixar 5 escudos, que baixe pelo menos 2! - E agora o senhor Alfredo conta-me mais do mesmo. Se não lhe comprarem o produto mais caro, não ganha nem para o sustento. Entram na loja e “estamos só a ver, obrigado”. Depois “até uma próxima. Bom fim-de-semana!” e nada compram. Deixam na caixa registadora nada para além de uma simpatia que, às vezes, nem entra.

O sol poente alumia o ar preocupado de quem por aqui passa. Há uma voz singular que ecoa numa das ruas estreitas. As compras já não são feitas como dantes; já não há uma multidão que se empurra para chegar mais depressa à camisola que transpira qualidade; já não se traz a família toda para procurar o presente que mais feliz faria a tia afastada que só gosta de coisas de lã. Até o artista de rua se queixa das poucas moedas que lhe pesam no bolso.As pedras da calçada que outrora conheceram os cascos dos cavalos da terra e que cheiraram a legumes frescos, agora já só conhecem o peso dos sapatos. Sapatos que nem comprados foram na loja da doce dona Maria que passa os seus dias na Rua Direita à espera de um cliente.

As multidões que em tempos invadiam as ruas estreitas e as lojas antigas entraram em extinção. Essas pessoas, as que traziam uma energia estonteante e umas malas vistosas que empeçavam em todos os braços sossegados, só aparecem de vez em quando. Limitam-se à quantia que lhes reveste os aforros e às condições que os tempos actuais vão oferecendo.

Agora, se me permitem, vou pousar a caneta. É que já vejo a avó a chegar ali a uma das ruas estreitas. E desta vez trouxe o avô, para que ele mate saudades das lojas sossegadas e faça as suas compras. Parece que a (des)vantagem não é para todos!» 


Continuo a achar que este meu texto escrito perto do Natal passado é intemporal. 


Daniela Carreira Peralta








Também vais gostar:

3 comentários

  1. Adorei :) Sabia que escrevias qualquer coisa, mas com tanta qualidade nao ;) Parabéns ;-)


    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigada! Fico muito feliz com o teu comentário; e ficava ainda mais feliz se soubesse o teu nome :) Beijinhos

      Eliminar
  2. À medida que lia, imaginava-te a escrever enquanto observavas o que te rodeava. Ao longo do texto, sorri, muito vezes, por me identificar com este género de escrita.
    Adorei!!!!

    ResponderEliminar

Com tecnologia do Blogger.