Texto de sexta à noite

19.12.14


Imagem weheartit
A chave entra na fechadura. Roda. Abre-se a porta. É nesta fracção de segundos que o peso de toda a semana cai costas abaixo. Amanhã não é dia de trabalho, não precisas de adiar o despertador por mais um ou dois minutos que te saibam a horas de almofada quente e não precisas de rechear a marmita com qualquer coisa que se coma lá na salita do convívio em que os micro-ondas dão mais voltas ao prato do que propriamente garfadas tu levas até à boca.



Ouço-te os passos. Suaves, lentos, os teus sapatos assentam no soalho de madeira que preenche o chão da cozinha e do corredor. Lá ao fundo já te vejo: expressão perdida, costas direitas, mala e casaco ainda desarrumados por entre os dois braços que entretanto são curtos para tudo. Faz falta, nesta tua entrada, a excitação de um cão feliz por teres realmente chegado. As contas não dão para tudo. Pelo menos, as que te chegam no final do mês. E a meio do mês… Durante todo o mês, sejamos francos. 

É sexta à noite. A música já enche a sala e o jantar pode estender-se pela noite dentro com a companhia de três ou quatro amigos porreiros; não precisas, por isso, de calcular um jantar curtinho para teres tempo de completar todos os teus afazeres até chegar a hora de dormir. Amanhã não é segunda-feira. Podes beber um ou dois copos de vinho, sentir o calor a bater-te nos joelhos, à lareira. Podes até ler mais umas folhas daquele livro que compraste com os descontos acumulados no cartão do supermercado. 

Se te apetecer, deixa a roupa espalhada pelo chão e amanhã até podes tropeçar nela sem te preocupares que isso te vai atrasar. Não leves isto como um acabar do mundo tranquilo, que ainda há muito para criar; muito para sorrir do simples sucesso de haver muitos dias preenchidos e muitas etapas ultrapassadas! 

Quero que leves isto como um momento de sossego e de descanso porque amanhã pode ser sábado e depois pode ser domingo, mas não deixam de ser dias inteiros em que podes ser criativa e em que podes fazer algo que realmente te encha o coração. E se a segunda e a terça-feira também te encherem o coração, melhor ainda. Só quero que leias todas estas palavras desajeitadas e que penses baixinho que realmente vives todos os dias da melhor forma. Da forma que mais te faz sentir aquele fôlego ameno que só se sente quando realmente algo nos deixa a vida colorida. 

Se o jantar for atum, deixa ser. O que importa é toda a cor que sentes dentro de ti. Sim, essa cor de teres mil sorrisos aí em ânsia por saltarem cá para fora. Sorri, sorri, que eu quero ver aqui da janela!

Amanhã há mais. E há mais porque é outro dia e os dias enchem-se sempre. Tu tens a tarefa de o preencher com coisas boas. Daquelas mesmo-mesmo boas. 




Daniela Carreira Peralta

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