Os emigrantes e os pastéis de nata

20.3.15




Imagem Pinterest

Deixar o país onde vivemos desde sempre é pesado. Não lhe chamo complicado porque, muitas vezes, o outro país que nos recebe terá mais e melhores coisas à nossa espera. Mas é pesado. Pesado porque deixamos pessoas de quem gostamos e memórias que não se vão com a distância. Com o tempo, habituamo-nos. Há um avião que nos leva de volta caso queiramos e haverá sempre alguém que nos receba de braços abertos com aquele frenesim de rever pessoas conhecidas que estiveram longe. Mas… e as memórias? Serão elas fáceis de gerir? E as saudades de usufruir de algo que não existe no país para onde viemos?
Desde pequena que lido com isto da distância e com isto de ouvir coisas estranhas sobre Portugal. Uma delas é a história dos pastéis de nata. Pastéis de nata. Aquele bolo sempre presente nas vitrinas lustrosas e nos supermercados. Às vezes, apanhamos aquele cheirinho a pastel de nata quentinho; noutras apenas ouvimos um “quero o mais queimadinho” de algum guloso. Ou então aqueles que os comem à colherada! Há de tudo. Mas eu nunca lhes achei piada. Talvez por serem demasiado vulgares. Ou por haver bolos melhores – porque os há, definitivamente! Não devo ter comido muitos ao longo destes 21 anos, a verdade é esta.

“Um café e um pastel de nata por apenas 1€” é uma daquelas promoções que qualquer espaço de restauração se sente obrigado a fazer a certa altura do seu percurso. Provavelmente, não por ser uma promoção que traga mais gás à casa, mas sim porque é quase uma tradição. Tornou-se tão habitual que já é estranho entrar numa pastelaria e não encontrar uma dúzia de pastéis de nata prontinhos a saltar para dentro de uma caixa de cartão. Uns meio queimados, outros ainda amarelitos. E depois aqueles em versão mini – porque claramente que um pastel de nata de tamanho normal pode encher demasiado a barriga de alguém menos exigente.

O “problema” do pastel de nata é que é português. E nem todos os portugueses estão fixados em Portugal. Vão para outros pontos do mundo tentar a sorte de conseguir algo melhor ou apenas seguem o coração que os leva a outros ares. Eu compreendo-os. Haverá quem não compreenda tão bem. Mas o ponto desta questão é que eles não têm pastéis de nata nesses pontos do mundo. Não os há porque não são gregos, nem egípcios nem alemães. Eles são portugueses. Vão na memória, só.

“Eu tinha saudades do mar e de comer pastéis de nata” é uma daquelas frases que qualquer membro da minha família repete de quando em vez quando retorna a Portugal de férias. O mar e o belo do pastel de nata. E eu achava-os tontos. Pastel de nata… porquê?  

Na verdade, nós gostamos do impossível. Pelo menos eu gosto! É aquele friozinho na barriga que o impossível traz. Sabem? E ontem, mesmo sabendo que não estou num país que venda pastéis de nata, eu quis um. Eu quis um pastel de nata durante toda a tarde. E não sei explicar porquê. Principalmente porque eu não lhes acho piada. Felizmente que os havia congelados algures num frigorífico da família. Porque ser português fora de Portugal também é ter pastéis de nata congelados. 

Daniela Carreira Peralta

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17 comentários

  1. Já eu adoro pasteis de nata e adorei o texto! Boa sorte nesse canto do mundo :)

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    1. Obrigada, Magali! :) é só por uns meses. Pelo menos, é isso que vou repetindo para mim :p Beijinhos!

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  2. Adoro os teus textos mas nunca sei o que comentar. Gosto, porque sim! Serve?!?
    Beijinhos***


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    1. Serve, com certeza, Inês! :) Beijinhos!

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  3. Mas há aqueles famosos pastéis de Belém muito bons!

    Beijinhos,
    http://cereja-dooce.blogspot.pt/

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  4. ahaha isso é tudo verdade. Eu acho que a saudade do pastel de natal, vem do hábito de ir à pastelaria e beber "um cafézinho com uma nata". Agora já ia um! Tentei fazer em casa uma vez mas não deu certo, também nunca seria a mesma coisa. Sou culpada no que toca comer pasteis de nata às colheres... eheh
    Ficou giro o texto :) Beijinhos

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    1. É um negócio a explorar por estes lados, Andreia! :) Beijinhos

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  5. Oh perdição! Pastéis de nata, Belém...

    http://atualidadesbyclaudia.blogspot.pt/

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  6. Adorei o texto e adoro pasteis de nata! hahahah
    Enquanto estava a ler o teu textinho lembrei-me dos meus irmãos que vivem fora de Portugal e que tal como os outros emigrantes adoram os pasteis de nata, acho que esses bolinhos para quem vive em Portugal são apenas mais uns, mas para os emigrantes quando comem um pastel de nata acho que os faz sentir que estão em "casa"!
    Um beijo

    https://futilaoutil.wordpress.com/

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    1. É um "mal" de que todos sofrem, quero crer! :) Obrigada pela tua visita. Um beijinho

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  7. Yummy!

    I am following you on gfc, would you like to follow me back so we can stay in touch?

    MY PETITE CORNER

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  8. Adoro a tua escrita!! Acho que devo ser a única pessoa do mundo que não gosta de pasteis de nata :P Aliás, não gosto de doces/bolos em geral nem de chocolate! Nem sei se é bom ou mau ahahah

    Tenho um giveaway a decorrer no blog, se quiseres espreita :)
    http://iminthemoodforblog.blogspot.pt

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    1. Não gostares de nata, eu até compreendo. Agora de chocolate... Ahah!

      Vou espreitar, com certeza! Um beijinho e obrigada :)

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  9. Revi-me neste texto :) antes também nunca achei grande piada aos pastéis de nata... mas depois de ter de ir lá para fora, a cada de ano que passa cada vez mais gosto deles e de comer um sempre que cá venho :) isso e as tripas de aveiro (doce tipico da minha cidadde :p)

    beijinhos
    http://pretty-little-stories.blogspot.com

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  10. eu nunca liguei muito aos pasteis de nata , encanta-me outros bolos ... mas são gostos !

    r: eu não troco os meus caracóis por nada :)

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