Review: Um Repórter Inconveniente

15.6.15





Há uns tempos que vos anunciei a parceria do Letras e Gavetas com a Chiado Editora. Um Repórter Inconveniente, da autoria do jornalista Aurélio Cunha, foi a minha primeira escolha. O livro, que veio ter comigo à Alemanha num ápice, fez-me companhia nas minhas viagens de comboio por uns tempos. Demorei mais tempo do que o que previa, confesso. Mas já o acabei de ler há um par de semanas e eis que aqui deixo a minha opinião sobre o livro.

Um Repórter Inconveniente, pelas mãos e memória de Aurélio Cunha. 443 páginas cheias de letrinhas que, juntas, trazem curtas e longas histórias que preencheram a vida deste jornalista que nem sempre se viu facilitado a fazer o trabalho de que mais gostava. “Bastidores do jornalismo de investigação”, lê-se na capa, logo por baixo do título. Cá eu, diria que todo o livro é uma gigante reportagem de todas as reportagens que Aurélio Cunha escreveu. Uma reportagem que conta as outras reportagens: isso mesmo.

A escrita do autor é simples e fácil de ler. Aliás, como qualquer escrita de jornalista que se preze. Acessível, compreensível e sem grandes margens para dúvida. Ou, deixem-me reformular. Acessível, compreensível e clara. Tenho de tirar o “sem grande margem para dúvida” porque o sarcasmo que o autor vai deixando, em doses saudáveis, pelas páginas que escreveu deixam realmente margem para pensamentos secundários. Porque, sejamos sinceros, as histórias do pequeno-grande Portugal deixam-nos a pensar na sociedade que outrora tivemos e na sociedade que temos ainda nos dias de hoje – porque a corrupção e a falta de lealdade não desaparecem assim com o passar das gerações. Não há uma oportunidade que escape. Desde que, permitam-me, seja uma oportunidade (in)decente para poder literalmente lixar o outro.

Jornalismo de investigação. Aquelas três palavras que, quando ouvidas, levam logo alguém a comentar “epa, não te metas nisso” ou “cuidado. Mexer nos podres de alguém custa caro”. E custa. Pelo menos, custa quando se chega ao final do túnel e quando a luz que brilha lá ao fundo é apenas o saco cheio de moedas brilhantes que alguém roubou antes de ontem. Não. Desculpem… Às vezes, isto de aldrabar é uma arte. O jornalista de investigação é só o historiador que escreve sobre Cristóvão Colombo. Será isto?

As histórias – verídicas – que Aurélio Cunha conta podem ser organizadas em prateleiras: hospitais fora-da-lei, padres pouco crentes, cadáveres sem destino, documentos pouco dignos, os famosos “foi o primo do chefe que…”, saúde sem organização e, mais do que tudo isto, pessoas sem escrúpulos. As prateleiras, organizadas por temáticas, até são muitas, mas todas elas estão dentro de um armário gigante. O armário para onde vão os casos de pessoas que não sabem viver em sociedade, que não conhecem o conceito respeito e que valorizam a vida dos outros por uma quantia muito muito baixa. É um armário. Ou será um país? Resta-nos acreditar em dias melhores. Sobretudo, em pessoas melhores.





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2 comentários

  1. só pelo título achei o livro interessante, depois de ter a tua review fiquei mais curiosa! vou adicioná-lo à minha lista :)

    beijinhos!
    blog casa et cetera

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    1. Confesso que às vezes pode ser um bocadinho aborrecido. Mas como são histórias pequeninas, podes ir lendo aos poucos sem perder "o fio à meada" :)

      Beijinhos

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