O Zé, o Jamor e a taça

4.6.15

A fotografia foi tirada pelo Zé, claro.

É isso mesmo. Tanto se falou (e falará) de futebol nesta semana que eu me lembrei de pedir a alguém que tivesse estado presente no jogo Sporting vs Braga de Domingo que escrevesse sobre isso. Foi o José Baptista Coelho que me fez esta vontade. Até me podem perguntar porque o escolhi. Eu respondo rapidamente. Quase nem fui eu que escolhi o Zé. Foi o feed do meu Facebook que o escolheu logo no Domingo quando deu destaque às publicações leoninas deste adepto. Senti-lhe a esperança. Imaginei os nervos. Quando lhe falei do texto que gostava que escrevesse, aceitou logo. E agora mostro-vos o resultado. 

«Sou sócio do Sporting há 12 anos. O ser Sportinguista foi sobretudo resultado de um tio que me levou a primeira vez ao futebol, e que ainda hoje mantém a tradição de ver a equipa lado a lado comigo. E de uma família na sua grande maioria verde. Entre outras coisas, lembro-me bem do meu avô materno na altura ainda vivo, paralisado de todo um lado do corpo por causa de uma trombose, ficar acordado toda a noite ver os heróis do título 18 anos depois chegarem a casa vindos do Norte. Lembro-me de naquela altura perceber o que era o Sportinguismo. A esperança que prevalece sobre as dificuldades. A alegria imensa do verde por todo o lado. Sou por isso um Sportinguista activo e vou ao estádio regularmente, no sentido em que fui a praticamente todos os jogos em casa dos últimos 9 anos. Incluindo a atípica recente época do 7º lugar em que, em muitos dos jogos, a única coisa que me consolava era uma manta nas pernas, partilhada pelo casal de velhotes que religiosamente ocupavam as duas cadeiras ao meu lado. Por essa mesma razão, a de ter bilhete de época faz tanto tempo, fui um dos que tive direito a adquirir um bilhete para ir ao Jamor apoiar a equipa naquele que seria o primeiro título no Futebol nos últimos 7 anos. E ao Jamor fui no Domingo acompanhado pelo meu tio e baptizador leonino. Mas, acima de tudo, desta vez era diferente. Uma final que se adivinhava difícil, contra aquela que tem sido consistentemente a quarta melhor equipa portuguesa dos últimos vinte anos. Quarto classificado contra terceiro. Mesmo apesar do Sporting ter ganho os dois jogos para o campeonato, uma final é sempre uma final. Seria sempre uma final. E uma final foi de facto.

A ida ao Jamor é sempre muito diferente de uma ida a qualquer outro jogo. Nem mesmo comparável a assistir a um jogo fora de casa. Como uma ida ao dragão ou à luz quando o Sporting se desloca lá para o campeonato. Tenho pelo Jamor um misto de pena e alívio. Pena por não ter sido remodelado quando devia, no Euro 2004, de não ter merecido mais atenção que a construção de estádios novos que para pouco ou nada servem. E alívio pela mesma razão, por não ter sido remodelado, por não terem construído um outro Jamor, e este manter-se assim: cru, antigo, histórico, com cadeiras que aleijam mas sombras que arrefecem a alma e os nervos. Por se ter mantido um sítio em que se vai para a final da taça como se ia para a final da taça há muitos anos atrás. Em que se sofre como se sofria antigamente. Em que não é só a bola que continua redonda mas também as cadeiras se mantêm rijas, e o sol arde como ardia antes, e as bolas entram como entravam antes, sem luxos demasiados, sem arquitecturas demasiado modernas. A não ser as fundações imortais dos pontapés numa bola. E talvez por tudo isto, na verdade, o alivio se sobreponha à pena. Eu quero ir ao Jamor porque ainda é o que era antes, porque o meu avô experimentou a mesma coisa que eu experimento quando lá vou. Porque de alguma forma o meu avô e os primeiros adeptos do futebol também se sentaram naquelas cadeiras e também sofreram naquele estádio. E nada disto foi renovado para lá do irreconhecível ou em um novo estádio que por si só perde toda a história.

No Domingo acordei com os cânticos do clube na cabeça e o Jamor no horizonte da intenção. “Encontramo-nos na Cruz Quebrada”, disse-me o meu tio ao telefone. “Não vais levar para lá o carro, vamos de comboio e voltamos de comboio”. E assim o fiz. Primeiro de metro até ao Cais do Sodré, e depois de dezenas de adeptos se verem aflitos para comprar bilhetes utilizando as máquinas mal preparadas para tamanho nervosismo de quem sofre antes do apito inicial, fiz-me ao comboio para o ponto de encontro. A partir da Cruz Quebrada é sempre a pé até ao velhinho Jamor. Pelo sol primeiro e depois pelas sombras de todas as árvores perfumadas com o cheiro a bifana. São inevitáveis as paragens contínuas para compensar o estômago e a garganta com carne e cerveja como forma de prevenir o nervosismo e afastar as inseguranças de que vamos ganhar a taça. De certeza! No Jamor toda a gente se conhece. Os do Sporting passam, batem nas costas um dos outros, dizem que não há hipótese. Que nem interessa se o treinador fica ou não, ou quem joga ou é convocado, que se ganha de certeza! Os do Braga, mais comedidos a início, são alegrados pela bebida e depressa vêm ao de cima as raízes do norte e o comboio de palavrões que os faz tão seus, tão genuínos. “O Braga é que é carago. Bamos ganhar de certeza! Nem há hipótese!” E mais uma quantidade de palavrões em forma de desafio que ninguém no seu perfeito juízo leva a mal. Lisboeta que perceba nortenho, sabe que se o palavrão não bate à porta é porque algo está mal. E portanto, até nos sentimos bem quando os vemos todos alegres. Com a língua solta e o coração aberto. “O Braga é o máior”. E pensamos para nós que a seguir ao Sporting o Braga até é o maior.

·  Quando entramos no estádio somos automaticamente assaltados pela simplicidade do cenário e pela razão de tudo isto. De haver um sítio destinado para uma final. E do sítio ser aquele. O sol que bate logo sem tréguas como forma de anunciar que é meio da tarde de um dia já de Verão, e o fresco que aqui e ali chega de todas aquelas árvores que nos rodeiam como em mais nenhum estádio do país. Assim que vamos andando percebemos que entrámos na história. E que estamos muito bem acompanhados. Até a busca pelo lugar tem a sua mística e a sua táctica. Os mais velhos tentam mostrar que sabem como é, mas perdem-se entre sectores, “porque já não é como antigamente” e mudaram as letras, quando quem mudou as letras foi a memória e o Jamor permanece igual. E mal nos sentamos percebemos a falta de espaço para esticar as pernas. E a forma como mais cedo ou mais tarde vamos ter que estar de pé, porque os nervos precisam de pernas esticadas para serem aliviados. Daí a nada, e assim que nos habituamos ao lugar e percebemos que até se vê melhor do que na televisão - algo que acontece sempre que voltamos a entrar num estádio a que estamos menos habituados – ouvimos os vendedores de gelados, de água e de queijadas. Bebemos água, refrescamos a garganta, a face e o nervosismo e esperamos pelo apito inicial. Uma voz puxa pelas gentes de Braga, eles cantam, cantam como se nunca tivessem cantado antes. Pelas primeiras vezes, os Sportinguistas dão um desconto e deixam-nos gritar. Depois a voz puxa pelos de verde e, a partir daí, a história é outra. Já ninguém mais vai gritar a não ser os de verde. Por mais que os das outras cores se esforcem. Braga passa a ser outra coisa sempre que é gritado. Sporting é sempre Sporting – irão desculpar os leitores este puxar a brasa a sardinha do autor do texto, mas é algo que evidentemente acontece. Não há forma de apoiar que se compare a de um adepto Sportinguista que não depende de vitórias para apoiar o clube. Acreditem, eu sei do que falo. E daí a um generoso pouco, uma a duas horas que passam num instante, dá-se o início do jogo.

O Sporting ganhou em penaltis. Foi um jogo mítico que eu não quero relatar em texto porque às vezes até um Sportinguista duvida que tudo acabe bem no final. Resumo a isto: o Sporting perdia por 2-0 com menos um jogador a 10 minutos do fim. Empatou em 10 minutos e, a partir daí, eu já sabia que não havia volta a dar. Íamos ganhar desse por onde desse. Houve gente que saiu mais cedo. Muitos voltaram. Acredito que haja gente que quando chegou a casa não se tenha apercebido que tinha sido o seu clube a ganhar a final da taça. Acredito que se arrependem muito. Não há nada melhor que ganhar quando todos juram que já não vamos lá. E, acredito, haverá muito poucas sensações melhores que isso acontecer num Domingo à tarde no Jamor.

Quando o jogo acabou, todas as bancadas ocupadas pelo Norte (que curiosamente estavam a Sul do estádio) ficaram rapidamente vazias. Lembro-me de olhar e ver os carreiros de tristeza bracarense dirigirem-se para as saídas e a contrastarem com o branco dos bancos do estádio do Jamor. E lembro-me de recordar o meu avô. Havias de ter visto este jogo avô. Havias de ter vindo connosco ao Jamor. Estava tal e qual o que tu te lembravas.

À saída comprei um cachecol ao vendedor ambulante. “Sporting-Braga Final da Taça de Portugal”. O resultado lembra a minha cabeça; o adereço é para recordar o Jamor. Comi uma bifana, mais uma, a bifana dos vencedores é sempre a que sabe melhor. E deixei-me deslizar por ali fora, pelas sombras agora mais calmas. E pelo ar agora frio das nove horas da noite. Para o ano volto, pensei. “Para o ano voltamos” disse ao meu tio. Ele riu-se e gritou “ganhámos, ainda não acredito que ganhámos”. E passado um longo sorriso quis arregaçar os ossos para se aquecer. “Devia ter trazido um agasalho. Esqueço-me sempre que o Jamor é frio depois do jogo”

Obrigada, José Baptista Coelho! 

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2 comentários

  1. Olá, este é o meu novo site do blog http://oblogdasky16.blogspot.pt/ :)

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  2. Olá, deixo-te aqui o link do meu novo blog: http://o-blog-da-rafaela-hope.blogspot.pt/ beijinhos*

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