É verdade: A Avó Veio Trabalhar!

15.10.15

Fotografia da autoria de Catarina Sanches

Era uma vez uma designer de equipamento chamada Susana António e um psicólogo chamado Ângelo Campota que se encontraram num projecto alheio a este há uns anos e que se afirmaram como alma-gémea um do outro desde então. “A combinação perfeita; tinha mesmo de ser”, dizia-me ontem a Susana. E eu acreditei. Acreditei porque as paredes coloridas do atelier d’A Avó Veio Trabalhar me engoliram que nem criança quando vê algodão doce. Não, não, não é brincadeira! Ali as avós trabalham e (con)vivem todos os dias.

Mudei-me para Lisboa há duas semanas e há meses que queria escrever sobre este projecto. Estar na cidade foi uma oportunidade e não a deixei escapar. Dez e meia da manhã, uma viagem de metro depois e com as instruções de um jovem taxista à mistura, cheguei à Rua do Poço dos Negros! Quando me sentei com a Susana para iniciarmos a nossa conversa, comecei por brincar: “Ainda é muito cedo ou a avó já está a trabalhar?”; verdade é que uma das avós estava já na sala ao lado com o Ângelo e com uma jovem voluntária a agitar o ambiente. Fiquei logo a saber que, entre as 10 da manhã e as 18 horas da tarde, o atelier está em funcionamento – fechando à hora do almoço. “Quando [os avós] estão chateados em casa e não têm nada para fazer, vêm ter connosco”, diz-me a Susana. “A porta está sempre aberta” e os voluntários são bem-vindos às Terças, Quartas e Quintas-feiras entre as 10 e as 13 horas para aprender.


O projecto A Avó Veio Trabalhar celebra neste mês de Outubro um ano de vida mas a ideia começou a ser cozinhada há 10 anos. Depois de se licenciar em Design de Equipamento e de ter sido voluntária num lar onde coordenava um grupo de idosos, Susana percebeu que era possível alienar o design às comunidades de uma forma social. Aqui, o que interessa a estes dois mentores é também “perceber como é que se diz ‘isto é nosso’ em vez de dizer ‘é meu ou teu’”. Com a ajuda do programa de financiamento BipZip (Bairros e Zonas de Intervenção Prioritária de Lisboa) da Câmara Municipal de Lisboa, o projecto começou a gatinhar e, pouco tempo depois, a andar com equilíbrio: já são 53 avós a trabalhar! A trabalhar em quê? Em produtos muito coloridos que juntam técnicas tradicionais com os gostos mais modernos e que podem ser comprados pela comunidade e expostos em galerias e museus de todo o mundo.

Embora este seja um projecto moderno, apenas pessoas com mais de 60 anos podem integrá-lo. Com idade inferior a 60 anos, é uma brincadeira de Susana e de Ângelo: “temos muita pena, mas tem de voltar daqui a uns anos”, diz-me por entre risos. Se bem que, jovens, podem ser voluntários! “A ideia é também podermos juntar as gerações e podermos aprender uns com os outros”, explica-me a designer




Porquê este conceito?

“Muitas vezes eu sinto que o trabalho é aquilo que nos identifica. Normalmente, quando nos apresentamos a alguém que não conhecemos, dizemos o nosso nome e, logo de seguida, se gostarmos do que fazemos [risos], dizemos o que é que nos caracteriza. ‘Eu sou designer’ é logo a segunda coisa que eu digo”.

Quando nos reformamos tudo parece um ambiente de férias e de descanso “mas depois o que é que nos caracteriza?”, pergunta Susana. “O trabalho não tem de ser visto como uma coisa cansativa, dolorosa e nefasta”, mas sim como “um papel de dignidade na sociedade”, conclui. N’A Avó Veio Trabalhar há uma colecção nova de 3 em 3 meses - brevemente estará disponível uma colecção de tapeçaria que a Susana me deixou espreitar e que, digo-vos já, tem muita pinta e muita cor! Quanto aos lucros, são partilhados por todos e, quando não em dinheiro, traduzem-se em “vouchers, idas ao cinema e outras compensações para a vida destas pessoas”. 



O atelier e as pessoas

A designer começa por me dizer: “mais do que este ser o meu espaço e do Ângelo, esta é a casa deles”. E não se engana nada. Os sofás antigos e as caixinhas de metal que tanto me fizeram relembrar a caixa de botões da minha avó são prova disso. Ali, naquele espaço, vive-se o ambiente típico da casa da avó – de qualquer avó.

Como é passado um dia no atelier, querem saber? Eu quis. “É fácil!”, diz-me logo. E continua: “Se nós marcarmos um horário, os nossos avós vêm sempre meia hora antes! A porta está aberta. Sentamo-nos, partilham-se ideias, fazem-se testes… O facto de termos esta montra aberta para a rua faz com que toda a gente que aqui mora entre pelo menos para dizer ‘bom dia’, todos os turistas entram encantados com o projecto…”.

Os produtos, quando postos à venda e em exposição, têm uma etiqueta com a fotografia do respectivo produtor. “A pessoa que produz fica sempre um bocadinho atrás do pano e queremos passá-los [aos avós] para a frente do pano”, explica-me. Até porque as avós gostam de saber que alguém lhes comprou determinada peça ou que ela está exposta no museu y



A evolução

A Avó Veio Trabalhar é um dos projectos da Associação Fermenta, cuja forma de actuar é através do design cultural e social, mas os mentores prometem novos projectos muito em breve. Sobre a Avó Veio Trabalhar, confessam: “O que nós lhes damos [aos avós] é uma nova maneira de ver o mundo mas depois é tão pouco comparado com aquilo que eles depois nos dão a nós”. “Eles estão mais novos. Têm outro discurso, têm uma preocupação diferente com a aparência, são mais participativos…”, conta-me Susana, que também está nomeada para o prémio Nação Inovadora (SIC Notícias e Audi) e que tão bem merece o nosso voto.

Em breve haverá mais avós a trabalhar também em Campo de Ourique. Os locais espalhar-se-ão pelo país e Susana diz-me com num sorriso cúmplice que este ponto “é algo que não vai demorar muito tempo a acontecer”. 



Os workshops

Há-os!, não pensem que não. Geralmente há 1 ou 2 workshops por mês. As temáticas são variadas e os locais escolhidos também são diversificados. Para irem sabendo mais sobre estas actividades que garantem “pelo menos 60 anos de experiência”, sigam o Facebook d’A Avó VeioTrabalhar. Já em Novembro, preparem-se, deve haver um novo workshop!

... E gostei tanto!

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2 comentários

  1. adorei o conceito! há muitos avós que precisam de estar entretidos, e esta parece-me uma excelente forma :D
    excelente reportagem, podes continuar! :p

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  2. É em uma sociedade assim que quero viver. Onde as diferenças não são impeditivos, mas fonte de aprendizados.
    Bela reportagem!

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