É saudade, isto?

11.3.16


Imagem pexel.com
Isto de confundir perfumes e de encontrar pessoas idênticas à que deixámos noutro lugar é saudade. Aquilo de começarmos a ouvir aquela música especial em todo o lado, também. Não adianta muito não lhe chamarmos saudade porque é definitivamente disso que se trata. A palavra é muito nossa e os linguistas dizem que não tem tradução. Até pode não ter… Mas o que se sente – este aperto levemente pesado no peito que causa uma arritmia moderada, acreditem, é universal. Podem não lhe chamar saudade do outro lado do mundo. Podem ter outras palavras bonitas que lhe descrevam de igual forma o sentimento. Saudade é saudade. Os cépticos podem até ignorar que a sentem, criando definições repescadas para aquela sensação dos batimentos do coração a latejar na garganta quando pensam em quem está do lado de cá. Vão por mim: é saudade na mesma. 


Sabem quando acordam com manhãs cinzentas e vos apetece pendurar um sol no céu? Quando se sentam num banco de jardim vazio e fecham os olhos para inspirar a lembrança de alguém que se costuma sentar ao vosso lado? Quando adormecem de almofada abraçada? E quando têm mil novidades para contar a alguém, o telemóvel na mão para ligar e não ligam? Quando espreitam a caixa do chat de hora a hora, não vá a notificação ter-se atrasado? É saudade. 

Saudade pura e dura. Costumo associá-la àquela sensação seca de ter as mãos exageradamente frias. É aquele querer fazer tudo para que desapareça. Soprar, soprar e a vela não apagar. Correr desajeitadamente e perder o autocarro na mesma. Ter a gaveta cheia de canetas mas não saber o que escrever na carta porque, se se começar, ainda mais dói. Ainda mais se sente a distância daquele beijinho que (já) antes nos assentou na testa e que tarda em repetir-se. E, depois, o aperto. Ou a lembrança do calor do abraço. O silêncio. Ou o frio do vazio.

Será a saudade uma pausa? Existirá a saudade para que nos relembremos de alguma coisa? Que nos lembremos do nosso país. Do Verão quente do ano que passou. Da família afastada. Dos dias de criança. Do amor que nos piscou o olho sem aviso? 

Facto é que se torna no nosso nome do meio. Não interessa em que dia do mês estamos, nem se a idade já (nos) vai avançada porque saudade há sempre. Comigo, está sempre a saudade. E esta arritmia chata também. 

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5 comentários

  1. Tu és um sol brilhante que aquece as manhãs cinzentas.. Que aconchega o coração de quem se perde na doçura das tuas palavras.

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  2. Depois de ler as tuas palavras cheguei à conclusão que também sinto saudade.

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  3. De vez em quando ela lá vem, a saudade... Mas para mim não é sempre, apenas em algumas alturas muito particulares.

    Gostei muito do texto, está bem bonito.

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  4. Por vezes, a saudade é algo bom. E é bom quando, por exemplo, sentimos saudades de alguém que já partiu. Isso significa que essa pessoa nos marcou profundamente e que jamais a esqueceremos.

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