Isto é ser-se português em qualquer lado

11.7.16


Estou há largos minutos a adiar o começo deste texto porque sei que vou chorar como chorei ontem. Como chorei quando vi o nosso capitão sentado no chão desolado. Como chorei quando vi a bola sair direitinha dos pés de Éder para a baliza. Chorei quando vi a alegria daqueles jogadores e de toda aquela equipa de trabalho a festejar a vitória e a segurar a taça. A taça que, quando observada, reflectia o mar de gente que estava presente… E que fazia pensar no outro tanto delas que se espalhavam por tantos outros países, esplanadas, casas, terras e esquinas. 
Ontem senti-me portuguesa como provavelmente não me sentia há muito tempo. Quando se passa muito tempo a saltitar entre países e quando se tem a família separada entre nações, fica-se um bocadinho perdida e esquecida de onde realmente se pertence. Mas ontem… Ontem deu para viver a união das nossas gentes e para perceber que não importa em que canto vivemos. O que importa é sentir-se um calor no coração quando pensamos em Portugal. E também por isso o jogo de ontem foi tão comovente.

Dizer que jogaríamos contra a selecção francesa era irónico precisamente porque a França é um dos países que mais emigrantes portugueses suporta há largos anos. Pensar que no final da noite uma das nações ganharia no marcador deve ter sido assustador para muita gente. Para mim, confesso-vos, a ideia foi sempre que ganhávamos. “É para ganhar” foi a última coisa que disse antes do jogo começar. “Não vai ser fácil, mas ainda estou crente”, dizia eu ao meu avô quando vi o capitão erguer o braço com uma expressão que tanto era de sofrimento, como de desilusão. – Não vale a pena dizerem-me que foi uma lesão acidental, porque de acidental teve nada. Mas se me perguntarem o que achei do episódio, a minha resposta será que raramente vi coisas fáceis acontecerem em Portugal. A força de vontade, o esforço e a ambição fazem parte do nosso povo. O melhor do mundo, quando é mesmo-mesmo “o melhor”, sente-se até no espírito. E verdade é que Cristiano Ronaldo se manteve activo de inúmeras formas naquele jogo. A força sentia-se até do lado de cá do ecrã.

Não foi fácil. Se tivesse sido, também as minhas palavras seriam diferentes de todas estas que vou deixando aqui inscritas. Seria fácil chegar aqui de rei na barriga e dizer que somos muito bons no futebol e que “varremos” (melhor ou pior) as equipas que jogaram connosco. Mas não. A questão é que não é só disso que é obrigatório falar – ainda por cima, depois de ontem e do último mês! Porque as peças fundamentais nesta competição foram a persistência e a força; dentro e fora de campo, foi a crença de todos e a cumplicidade de cada um de nós (e deles) que deram origem às circunstâncias. Foi o conceito de nação que prevaleceu aqui e o de camaradagem que deram brilho à vitória. Foram as noites mal dormidas de cada português, os gritos em frente ao ecrã, os festejos peculiares, os quilómetros de cada emigrante, os sacrifícios de uma vida inteira fora do país de origem e, mesmo assim, o amor que se lhe tem, que avivaram cada um de nós sobre o que é isto de se ser português. 

É que, de facto, nunca é muito fácil para nós. Ora porque estamos longe da nossa nação, ora porque encontramos força de subsistência noutro país, porque estamos longe de todos os que escolhem ficar ou pelo simples facto de nos apetecer um pastel de nata e de não haver um café de portugueses ao fundo da rua. Impostos, desemprego, contas bancárias menos recheadas, sanções, tudo isso e mais qualquer coisa (também) para os que decidem ficar. Mas são esta insistência e união que nos fazem sempre desbravar caminho. Mais ou menos como o facto do capitão sair do campo lesionado mas haver o espírito de se ganhar por ele. E de se ganhar por todos quantos nasceram neste país. Pelos que não nasceram cá mas consideram esta nação a sua. Pelos que morrem de saudades mas que não têm como vir com frequência. Pelos que cá estudaram e só fora daqui encontraram emprego e estabilidade. Pelos que foram cá turistas, gostaram e se apaixonaram a ponto de torcerem pela nossa vitória. Vontade de ganhar. Ganhar por todos quantos cabem em Portugal. Ganhar por todos quantos trazem este pedaço grandito de terreno no coração. No fundo, tudo isto é amor. Tudo isto é orgulho. É ser-se português, aqui, ali, acolá e em qualquer lado.


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